COVID-19, Telemedicina e Eficiência do Sistema de Saúde

 A Pandemia do Coronavírus traz a tona uma questão crítica para os

Sistemas de Saúde, que é a capacidade de lidar com grandes problemas, aqueles

que afetam a sociedade de uma forma intensa. A Pandemia do Coronavírus, por

tratar de uma doença com evolução rápida, que se transmite com facilidade,

potencialmente fatal, que muda drasticamente o dia a dia das pessoas e é cercada

de muita incerteza, leva a uma enorme atenção da população, dos Sistemas de

Saúde e dos Governos, funcionando como um “Teste de Fogo” para o Sistema.

É importante lembrar que outras doenças infecciosas e crônicas não

transmissíveis são tão graves ou mais que a COVID-19 para a sociedade, mas

como existem de uma forma menos aguda, menos alarmante e cercadas de menor

incerteza, elas não mobilizam a sociedade e os Sistemas de Saúde com a mesma

intensidade e emoção.

Nos Sistemas de Saúde, como os recursos financeiros são sempre menores

do que os considerados necessários para abordagem dos problemas existentes, a

eficiência assume um papel crítico. Eficiência é a combinação ideal de

informação, estratégia, planejamento e capacidade de execução, independente

dos recursos financeiros disponíveis.

Outro ponto importante é que Sistemas de Saúde não quebram, não vão a

falência, eles simplesmente se ajustam, com base nos recursos financeiros

existentes e na eficiência da operação do sistema. Os Sistemas de Saúde se

ajustam restringindo acesso. Quando faltam profissionais, materiais e

medicamentos, quando cirurgias são canceladas, quando leitos são fechados, o

que aconteceu na realidade foi restrição de acesso.

Pacientes e Eficiência têm que ser o centro do Sistema de Saúde.

O que me levou a escrever esse post foi uma discussão que vi sobre o uso

da Telemedicina em um grupo de WhatsApp, onde alguns participantes do grupo

discutiam o problema do corporativismo no processo de incorporação da

Telemedicina e os impactos negativos desse tipo de abordagem no cuidado, no

sistema de saúde e na sociedade.

A Telemedicina, nas suas diversas formas, é apenas uma ferramenta

disponível no Sistema de Saúde e não uma solução nela mesma. Como quase

sempre na vida, as tecnologias não são boas ou ruins por si só, elas são bem

usadas ou mal usadas. Na prática, isso deixa claro que o mais importante para

transformar inovação em progresso e bem estar não são as tecnologias ou as

ferramentas, mas as pessoas que as usam.

Uma questão que chama atenção quando se defende a não incorporação da

Telemedicina, é a discussão dos riscos para os pacientes. A pergunta é se os

encontros presenciais são a garantia de um cuidado eficiente e de competência

pelo profissional de saúde. Claro que não. Assumir que o cuidado presencial é  sinônimo de humanidade e competência é no mínimo um erro. As duas formas

de atendimento, Telemedicina e Presencial, estão sendo tratadas de forma distinta

e desigual. Assumir que a Telemedicina tem riscos maiores que os encontros

presenciais sem a existência de informação de qualidade que corrobore essa

afirmação é um posicionamento emocional ou corporativista. Essa abordagem

não técnica na avaliação da Telemedicina tem que ser mudada.

Os Conselhos Regionais e Federal de Medicina podem assumir a liderança

na definição da forma adequada de usar a Telemedicina e nas ações necessárias

para que essa implementação ocorra o mais rápido possível, talvez ainda à tempo

de ajudar na luta contra o COVID-19. Os Conselhos não devem ficar em uma

posição passiva esperando propostas, projetos, sugestões e regulamentações.

Discussões e posições que de uma forma clara ou disfarçada travam a

implementação de tecnologias que vão trazer benefícios para os pacientes e para

o Sistema de Saúde precisam ser neutralizadas. As discussões e ações precisam

migrar da discussão se a Telemedicina deve ou não ser implantada para aquelas

que definam onde e como ela deve ser implantada. Essa discussão tem que ir

além de avaliações onde a Telemedicina pode ajudar, caminhando para definir as

situações em que ela pode e deve substituir o modelo presencial, simplificando

os processos para pacientes e prestadores e melhorando a operação e eficiência

do Sistema. Discussões que limitam a implementação da Telemedicina também

são um bloqueio para o surgimento de outras tecnologias e inovações que podem

aumentar a eficiência do sistema. É possível que a capacidade de colher dados de

qualidade aumente com as consultas online. Startups podem focar em criar

produtos e programas que aumentem a capacidade de colher dados e alimentar

bancos de dados, à partir de consultas e interações online, automatizando e

simplificando processos e gerando informações mais complexas, mais

detalhadas, de maior qualidade e mais úteis para os gestores e para a sociedade.

Algo que pode ser avaliado com a situação atual gerada pela Covid-19 é

qual a diferença de produtividade entre o Home Office e o trabalho presencial

naquelas situações em que ambas as opções são possíveis. Pesquisas que avaliem

o papel do Home Office no aumento da produtividade, deixando de abordar o

Home Office apenas como uma alternativa a uma opção clássica e teoricamente

melhor que é o trabalho presencial, pode levar a grandes mudanças de hábito e

cultura, com ganhos de produtividade e qualidade de vida no futuro.

Ideal que os gestores, os profissionais de saúde, as instituições prestadoras

e as operadoras cresçam através dos ganhos gerados para sociedade e para o

Sistema de Saúde e não através de sacrifícios da sociedade e do Sistema.

Impossível falar sobre o problema da COVID-19 no Brasil e não comentar

a atuação brilhante do Ministro Luiz Henrique Mandetta. Excepcional condução,

tranquilidade, equilíbrio, eficiência e enorme capacidade de comunicar de forma

clara com a sociedade.

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