COVID-19: Histeria ou Sabedoria?
A discussão sobre as estratégias e ações que foram definidas por governos,
incluindo o Brasileiro, para controlar a Pandemia do Covid-19 mostra uma
polarização cada vez maior, colocando frente a frente diferentes visões dos
possíveis benefícios e riscos que o isolamento, o confinamento e o fechamento
de empresas e negócios podem gerar para a sociedade. É como se existisse um
grupo focando nas pessoas e na saúde e outro no mercado, nas empresas e no
dinheiro, mas essa abordagem dividida, antagônica e talvez radical não é aquela
que mais vai ajudar a sociedade a passar por esse problema.
A situação do gestor de saúde é muito difícil, porque ele precisa tomar
decisões duras usando informações e projeções que apresentam grande incerteza.
A função daqueles que lideram e preparam o sistema de saúde para enfrentar
problemas, como esse da Covid-19, não é ter uma estratégia “Robin Hood”,
imaginando que existe um alvo preciso e vendo aquilo que é decidido hoje como
o que vai definir o sucesso ou fracasso da estratégia e da abordagem. O sucesso
vai depender da capacidade de colher dados críticos em tempo real, de incorporar
e analisar essa base de dados atualizada, de ajustar as projeções quanto aos
possíveis impactos das escolhas, rever as decisões e desenhar novas medidas e
ações. Ter uma visão polarizada, tentando adivinhar o que vai acontecer ou
assumindo posições radicais só vai atrapalhar a capacidade de entender e
enfrentar a situação e de se transformar com a velocidade e eficiência necessárias.
O papel do líder e gestor em um processo como o do Covid-19 é mais
complexo do que tentar adivinhar o que vai acontecer para planejar os próximos
passos. Aquele que lidera a estruturação e operação do sistema de saúde em
situações como essa precisa mapear os possíveis cenários, do mais provável ao
menos provável, e de alguma forma se preparar para cada um deles e para suas
evoluções. Isso vale inclusive para os cenários menos prováveis, principalmente
se eles trazem com eles possibilidades catastróficas, como acontece com a Covid19.
Comparações com pandemias anteriores como a Gripe Espanhola e a Gripe
Suína são inevitáveis. A mais importante delas é a Gripe Espanhola de 1918.
Publicações apontam que a Gripe Espanhola matou cerca de 40 a 50 milhões de
pessoas no mundo, tendo acometido em torno de 500 milhões de pessoas,
aproximadamente ¼ da população mundial na época. O surto aconteceu em 3
ondas, sendo a segunda onda a mais severa delas. Nesse aspecto é interessante
acompanhar o que vai acontecer na China, onde aparentemente a doença foi
controlada. Um reaparecimento significativo, uma 2a onda mais agressiva, pode
apontar para uma semelhança maior com a Gripe Espanhola do que inicialmente
imaginado. A Gripe Espanhola e a Covid-19 aconteceram em momentos muito
distantes da história. Por um lado temos hoje uma interação muito maior entre
países e pessoas, mas em contra partida temos uma capacidade muito maior de
tratar e curar complicações como pneumonias bacterianas que se superpõem à infecção viral inicial e de oferecer cuidados de suporte sofisticados, como os
respiradores. As idades mais comprometidas também foram diferentes, com um
acometimento maior em pessoas mais jovens na Gripe Espanhola, mas isso é algo
esperado, já que a expectativa de vida ao nascer em 1917, era muito inferior. Na
Espanha em 1917 a expectativa de vida ao nascer era de 42,63 anos e caiu para
30,29 anos em 1918. Portugal teve uma queda de 35,60 para 20,30 no mesmo
período e no Brasil os números foram respectivamente 31,98 e 26,68 anos. Para
compararmos, em 2018 a expectativa de vida ao nascer no Brasil foi de 76,3 anos.
A 1a Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918, matou cerca de 20 milhões de
pessoas, menos da metade da Gripe Espanhola. Alguns pesquisadores afirmam
que a Gripe Espanhola matou em 24 meses mais do que a AIDS em 24 anos.
É muito medo e incerteza no ar. O grande problema que vivemos hoje é a
incerteza sobre o potencial de contaminação e letalidade do novo Coronavírus.
Falta informação com a complexidade, detalhamento e velocidade necessárias.
Quanto menos informação de qualidade, maior vai ser a incerteza que o gestor
vai trabalhar para definir políticas e ações. Informações menos precisas e
defasadas acabam levando a um maior número possível de cenários e cada um
deles cercado de muita incerteza. Tomar decisões e fazer escolhas nessas
condições é um enorme desafio. A chance de errar é grande, daí a necessidade de
tentar reduzir a incerteza através da informação complexa, detalhada e em tempo
real.
Quando vemos acontecer coisas que nunca vimos antes, como hospitais
pelo mundo não conseguindo dar conta do volume de pacientes, discussões sobre
ter que escolher quem vai ser tratado, quando pessoas precisam esperar e se
acumulam na espera do seu enterro, isso liga um sinal de alerta para possibilidade
de estarmos diante de algo novo e de potencial indefinido quanto a capacidade
de contagiar e matar. Se hoje temos acontecimentos mais graves e diferentes do
que já vimos acontecer no passado, talvez estejamos diante de uma doença
também diferente do que já vivenciamos antes. Quando pessoas próximas ou de
alguma forma conhecidas começam a ser acometidas e a morrer, isso
inevitavelmente vai levar ao medo da situação atual poder ser de alguma forma
semelhante à Gripe Espanhola.
Eu tinha recentemente me formado médico quando a AIDS surgiu e lembro
claramente que apesar do grande medo e ansiedade que existiu ao longo dos
primeiros anos da doença, nada semelhante ao que vivemos hoje aconteceu.
O acesso a informação também é bem diferente hoje, mas a grande pergunta
que me faço é se essa diferença impacta mais no volume e na qualidade do
conhecimento ou na velocidade de acesso a ele.
A mudança de comportamento de Boris Johnson no Reino Unido e de
Donald Trump nos Estados Unidos em relação as medidas de isolamento
aconteceu em função de uma projeção feita à partir da comparação da evolução
da Gripe Suína com a Covid-19. Essa modelagem projetou 250 mil mortes no
Reino Unido e 1 milhão de mortes nos Estados Unidos. Mesmo que tivessem
opiniões diferentes em relação a melhor forma de abordar o problema, ficou
impossível para Johnson e Trump correr o risco de cometer um erro na avaliação do risco e em enfrentar as consequências de um erro dessa magnitude. Vale dizer
que modelagens e previsões radicais e emocionais geram mais problemas que
solução.
Como vemos, o risco da Covid-19 para a sociedade e para a saúde das
pessoas ainda não é claro e pode ser muito grande. Essa incerteza e o medo levam
os países e sistemas de saúde a adotar de forma totalmente compreensível as
medidas atuais, mas o ponto fundamental da discussão, quando mudamos a
perspectiva para o lado econômico, é qual o impacto das perdas econômicas na
mortalidade não só das empresas, mas das pessoas. Temos que avaliar a
abordagem aparentemente oposta, que começa a discussão pelo lado econômico,
usando o mesmo objetivo final, que são os desfechos clínicos em saúde, que é
evitar a morte e o sofrimento das pessoas.
Criar uma polarização, imaginando que de um lado estão as pessoas e do
outro lado o dinheiro, pode ser um erro grave na avaliação do problema trazido
pela Covid-19. Uma situação de competição pode gerar grande ineficiência na
capacidade de interpretar a evolução da situação e na capacidade de ajustar o
sistema de saúde e o dia a dia das pessoas adequadamente.
Um conceito importe são os “Determinantes Sociais da Saúde”, que são
aquelas variáveis, independentes dos cuidados em saúde, que vão ter um impacto
muito significativo na mortalidade, na expectativa de vida e na qualidade de vida
das pessoas. A Estabilidade Econômica é um desses Determinantes.
Sem a informação precisa sobre o impacto de uma recessão e de uma crise
econômica na mortalidade, fica muito difícil comparar os desfechos clínicos
decorrentes das diferentes abordagens, de escolhas como o confinamento,
distanciamento e fechamento de comércios e outras atividades ligadas ao
consumo e que impactam diretamente na saúde econômica de um país.
Os que mais sofrem em crises econômicas são as pessoas mais pobres, mas
é um erro as pessoas com melhores condições financeiras imaginarem que
estarão imunes às consequências de uma crise econômica grave. A crise
econômica vai impactar muito a capacidade de ter acesso a cuidados adequados
em saúde, mas esse não é o único problema. Por mais recursos financeiros que
pessoas mais ricas possam ter, em algum momento vão ter dificuldade em
encontrar itens básicos para o dia a dia, será cada vez mais difícil sair de casa,
enfrentar saques e violência urbana e ter acesso a um cuidado de saúde mais
individualizado e de qualidade. A verdade é que não se consegue prever todos os
desdobramentos e a magnitude de uma crise econômica severa. É impossível
saber para onde isso vai nos levar no futuro e vale lembrar que nesse momento
mudar para outro país não é uma opção possível.
Não me coloco aqui como alguém que defende um lado ou outro, na
verdade é o oposto, não pode existir lado. O fundamental é analisar criticamente
e de forma contínua a situação e as projeções, integrando continuadamente a nova
informação na análise. A informação que chega a cada dia precisa ser complexa,
detalhada e em tempo real. É necessário rever diariamente a realidade, os
cenários, as projeções e as ações. Como comentado, projeções e posições radicais
e emocionais só levam a mais confusão e problema.
Fundamental evitar posições pré concebidas que vão bloquear a capacidade
de analisar de forma clara e ideal a informação, o momento e as prováveis
consequências. Com base nessas análises contínuas e não emocionais, as políticas
e ações serão revistas.
É crítico entender que mudanças contínuas nas decisões e ações não são um
sinal de fraqueza, incapacidade ou de desorganização, mas sim a estratégia ideal
em situações onde mudanças acontecem rapidamente e que são marcadas por
grande risco, incerteza e desinformação.
Os modelos e projeções precisam levar em consideração o impacto de uma
crise econômica nos níveis de saúde e mortalidade da população. É necessário
que o desfecho clínico seja a métrica comum na avaliação de qualquer iniciativa
tomada pelos países e pelos gestores. Precisamos avaliar o impacto de uma crise
econômica usando uma métrica que leve em consideração número de mortes, e
números que reflitam outros indicadores de saúde e bem estar. Como projeções
em relação a esses números são muito difíceis e complexas, acabamos não
trazendo essa métrica e esses indicadores para as análises e discussões com o
peso e rigor necessários. Não levar em consideração de forma clara o lado
negativo das escolhas leva invariavelmente a decisões que podem gerar mais mal
do que bem para a sociedade.
Se não conseguirmos encontrar rapidamente um tratamento para a Covid19, algo que talvez os tratamentos à base de cloroquina possam representar, a
cada dia que passar essa situação de confinamento, isolamento e queda
econômica vai levar a uma angústia, desconforto, ansiedade e problemas
crescentes e imprevisíveis. É preciso acompanhar as mudanças de
comportamento, valores, prioridades e escolhas que vão acontecer com a
evolução da situação atual.
Informação em tempo real, sabedoria e capacidade de comunicar e executar
vão ser as ferramentas mais importantes para que possamos enfrentar a Covid-19
e sairmos dela da forma menos sofrida possível.
